Organizações com propósito!

Evidências surgem a todo momento de que a evolução é inevitável e chegou a hora de dar os primeiros passos. Prova disso é o estudo Millennial Survey, publicado pela Deloitte na edição de 2015, que fala sobre os costumes da geração de pessoas nascidas após 1986. A pesquisa que foi realizada com mais de 7.800 pessoas ao redor do mundo concluiu que a geração Millennial valoriza mais o propósito do negócio do que o lucro.

Segundo a Forbes, esse grupo da população que também é conhecido como geração Y, possui um poder de compra na casa dos US$ 2,45 trilhões e integrarão cerca de 75% da força de trabalho até 2030. Mas o que a sua empresa tem feito para se adequar a esses indivíduos que vem influenciando tanto a condução dos negócios, o mercado de trabalho e as relações entre empresa e consumidor?

Desde que a valorização de aspectos humanos por parte do consumidor se tornou fator decisivo para compra, tornou-se necessário provocar transformações que impactam a maneira como as empresas se comportam no mercado. E um dos princípios adotados pelas organizações tem sido a coerência, que é o alinhamento entre o que se diz e o que se faz. Ao decidir ser uma empresa com viés de sustentabilidade, por exemplo, é primordial que todo o seu processo produtivo e seus clientes sejam beneficiados com ações que visam suprir as necessidades, sem comprometer o futuro das próximas gerações.

Um forte exemplo de empresa coerente é a TOMS Shoes, que surgiu quando Blake Mycoskie decidiu que criaria um negócio com uma proposta de valor simples e consistente: para cada sapato vendido, um sapato é doado para uma criança carente. A história da empresa é contada no livro Comece algo que faça a diferença, escrito pelo próprio Mycoskie, que cita o fato de que, apesar de beneficiar comunidades pobres, a TOMS não deixa de ser uma empresa que visa lucro. Entretanto, apresentar o viés social da causa fez com que a marca recebesse apoio de empresas como Vogue, AT&T e Ralph Lauren, permitindo que o negócio se torne viável, através dos clientes que se tornam embaixadores e divulgadores da marca, e beneficiando mais crianças.

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     Na etiqueta diz: com cada par que você compra, a TOMS dará um par de sapato para uma criança carente.

Quando define algo em que acredita e isso está presente em toda a cadeia, a transformação começa a tomar forma. A partir do momento em que os donos e líderes da empresa acreditam no porquê dela existir, as pessoas param de trabalhar porque precisam e passam a trabalhar porque querem, transmitindo essa postura aos clientes e consumidores. Entretanto, como é possível estabelecer um motivo pelo qual a empresa faz o que faz?

A resposta a essa pergunta deve ser encontrada com base na afirmativa de que propósito é aquilo que se faz para executar a diferença no meio em que se atua, não é apenas um complemento. É algo entranhado em tudo que a empresa diz e faz – mais uma vez a coerência é um ponto importante – e não é uma iniciativa isolada e momentânea. É uma finalidade que deve estar impregnada na cultura da empresa. Você deve estar se perguntando em que momento o propósito se tornou tão importante, mas ao analisar os dados citados anteriormente é possível perceber que o status foi concedido a partir da velocidade com que os hábitos de consumo tem se transformado.  

Ao estabelecer uma cultura de propósito, a organização entende que obter sucesso, atender os clientes e crescer de forma mais consciente é uma questão de alinhamento. E tudo começa no meio de trabalho. Em vez de seguir regras de mercado, tentar prever e controlar o futuro, os membros da organização querem se tornar parte, caracterizando o negócio como um organismo vivo, com seu próprio potencial criativo e propósito evolucionário. Como resultado, desenvolve um estilo de liderança mais distribuída, com conhecimento compartilhado, equipes autogerenciáveis e que tem o propósito como principal motivador e critério de decisão.

Se todos estão focados e acreditam no mesmo objetivo, nada melhor para atingir resultados significativos, além de que a crença em um propósito representa uma vantagem competitiva, pois permite um crescimento exponencial coerente, une as aspirações coletivas, atrai os melhores talentos, suporta uma cultura cooperativa e permite agilidade e aprendizagem.

A partir de tudo isso você já deve ter pensado que a missão e a visão representam o que o seu negócio é, e ainda deve ter cogitado que buscar a essência de uma marca é privilégio de grandes empresas, entretanto é o propósito que revela o “porque” ela existe. Então, como encontrar esse significado?

Simon Sinek, autor da teoria do Círculo de Ouro (The Golden Circle), diz que as pessoas não compram o que você faz, compram o porquê você faz. A ideia defende que existe um padrão de pensamento nas organizações inovadoras, que pode ser explicado através de um conjunto de três círculos, um dentro do outro, em que o círculo que se encontra no núcleo representa o “porque”, o do meio é o “como” e o de fora é o “o que”. Seguindo esse entendimento, as empresas inovadoras se comunicam de dentro para fora, – contrariando as demais – onde primeiro mostram as razões de existir para depois dizerem como e o que fazem.

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É importante esclarecer onde, por quem e como o propósito vai ser definido. O ideal é que a definição se dê fora do ambiente usual de trabalho, sem interrupções, de preferência em um lugar perto da natureza.

Se puder contar com um facilitador para permitir a participação de todos sem preocupação com tempo, intervalo, logística; a dinâmica flui de forma mais rápida e positiva. Em um momento pode contar apenas com os sócios, até a equipe toda, ou incluir fornecedores, clientes e comunidade, que também fazem parte da negócio. Tudo vai depender da maturidade da empresa e da abertura que ela possui.

Dependendo da empresa, o dia pode começar já na dinâmica ou primeiramente ter a fala de alguma pessoa da organização, ou ainda fazer com que esse momento faça parte de um planejamento estratégico, por exemplo.

Como sugestão, para que o momento seja simples, é ideal que:

  • Todos sentem em uma roda, depois de algum momento de interação;
  • Pode ser iniciada alguma dinâmica de quebra-gelo. Pode ser uma pergunta como: “qual o seu sonho para o dia de hoje?”;
  • É importante inserir as pessoas em um contexto, fazer uma introdução do motivo pelo qual o propósito está sendo definido e deixar claro que este evolui e pode mudar com o tempo;
  • Para dar início aos trabalhos de fato, podem ser distribuídos bloquinhos de papel, para que as pessoas respondam e reflitam sobre três perguntas:
  1. A que objetivo maior nossa organização serve ou tem vocação para servir?
  2.  Que problema no mundo é uma dor muito grande e nossa organização tem vocação para resolver?
  3. O que é um futuro desejável para você? De que maneira nossa empresa pode contribuir para esse futuro desejável?
      • Todos podem ler suas reflexões e colar em uma cartolina, agregando as respostas mais parecidas;
      • Pode ser feita uma reflexão individualmente em relação ao momento que acabou de acontecer, e como cada pessoa resume em poucas palavras o que emergiu entre o grupo;
      • Para definir o propósito coletivo, é colocado um papel com uma caneta no meio da roda. É definido um tempo de pelo menos 30 minutos, para a dinâmica acontecer. O momento acontece da seguinte maneira: todos em silêncio, atentos ao outro e ao centro do círculo. Alguém começa, vai ao papel, pega a caneta e escreve sua proposta de propósito. Volta ao lugar e entrega a caneta para a pessoa ao lado. Essa pessoa lê o propósito escrito no papel e escolhe: ou deixa como está e passa a caneta para a pessoa ao lado, ou risca tudo, escreve outro propósito totalmente novo e passa a caneta para o lado. O que importa é que ela passe a caneta para a próxima pessoa e que no papel esteja escrita apenas uma proposta de propósito.

Dessa maneira, haverá sempre um propósito escrito no papel. O propósito será definido quando todo mundo ao pegar a caneta não faz alteração nenhuma e passa ela para o lado ou quando o tempo acaba. E se o tempo acabar, vale o propósito que estava ali por último.

O facilitador lê em voz alta o propósito e enfatiza que este pode ser revisto num tempo determinado anteriormente. É importante que que o propósito seja inspirador, memorável e memorizável, algo que as pessoas lembrem depois de horas ou dias após a definição.

É fundamental se perguntar o quanto o mercado e os consumidores sentiriam com a ausência da sua empresa, o quanto o propósito definido impactará a sociedade em que o negócio está inserido.

Talvez as grandes empresas tenham mais estrutura para colocar em prática o propósito em diferentes frentes de trabalho, mas muitos pequenos negócios estão surgindo já com o seu “porque” definido e é isso que os diferencia dos demais e cria um elo entre empresa e consumidor.

Quando começou em 2005, Luiz Quinderé, do Brownie do Luiz, enxergou a oportunidade em vender seus bolinhos na escola, mas após alguns anos percebeu que era necessário se apoiar em um motivo forte para continuar a produzir. O mercado é muito concorrido, mas o que o faz não ser “mais um bolinho como todos os outros” é justamente a personalidade da marca, o seu propósito definido. A empresa, que hoje fatura R$ 3,5 milhões por ano, tem como objetivo alimentar felicidade através do empreendedorismo consciente. E segue crescendo.

Desfrutar de um propósito contribui e muito para a manutenção da reputação de um negócio e sua sustentabilidade. Afinal de contas, ter a direção certa a seguir e uma total adesão e identificação consolida a imagem da empresa, e mantê-la perante as partes interessadas, é mais uma vez uma questão de coerência.

Por último, deixo uma reflexão: a sua empresa traz para o mundo algo mais significativo do que serviços ou produtos?

*a dinâmica sugerida foi retirada de um texto publicado por Guilherme Lito, no Medium.

Alê
Alessandra Oliveira
Consultora de Projetos
A.C.E. Consultoria


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